A reação de Zezé Di Camargo expõe os limites entre opinião pessoal, militância política e o papel institucional da mídia
O recente rompimento de Zezé Di Camargo com o SBT escancara um problema que o Brasil insiste em alimentar: a confusão entre opinião pessoal, militância política e o papel institucional dos grandes veículos de comunicação. Ao criticar a emissora por convidar o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, e o ministro do STF Alexandre de Moraes para um evento institucional, o cantor transformou uma decisão editorial legítima em um ato ideológico pessoal.
É preciso separar as coisas. O SBT não convidou Lula por alinhamento político, mas por obrigação institucional. Gostemos ou não, Lula é hoje o presidente do Brasil, eleito democraticamente, e ocupa o cargo político mais relevante do país. Um veículo da magnitude do SBT não pode se dar ao luxo de agir como um canal partidário. Comunicação de massa não é palanque ideológico. É espaço de diálogo, informação e representação da realidade política do país.
O evento promovido pela emissora, ao reunir figuras de campos políticos opostos, incluindo Lula, Tarcísio de Freitas, ministros do STF, do TCU e membros do governo federal, foi um raro momento de distensão em um ambiente político permanentemente tensionado. Isso, por si só, deveria ser visto como algo positivo. Democracia se fortalece quando instituições dialogam, não quando se isolam em bolhas.
A reação de Zezé, ao pedir que seu especial de Natal não fosse exibido, revela o quanto a polarização tem ultrapassado o campo do debate racional e migrado para o terreno da emoção, da ruptura e do cancelamento. Ao reduzir a decisão do SBT a uma suposta traição ideológica, o cantor ignora que emissoras não pertencem a famílias, artistas ou grupos políticos. Elas pertencem ao público.
O problema maior não está em Zezé ter uma posição política. Isso é legítimo. O problema é exigir que uma emissora nacional molde sua linha editorial a partir da visão individual de um artista. Quando isso acontece, quem perde não é a direita, nem a esquerda. Quem perde é o povo, que passa a consumir uma comunicação cada vez mais contaminada por radicalismos, ressentimentos e disputas pessoais.
Enquanto políticos conversam, instituições se encontram e o país segue funcionando, parte da sociedade permanece presa a uma guerra simbólica que não gera emprego, não melhora a educação, não fortalece a saúde e não resolve os problemas reais do Brasil. A polarização rende likes, engajamento e manchetes, mas não constrói soluções.
Zezé foi infeliz ao atacar o SBT por cumprir seu papel institucional. Em um país democrático, maturidade política significa aceitar que o espaço público não existe para confirmar crenças individuais, mas para representar a pluralidade. Comunicação responsável não escolhe lado. Escolhe responsabilidade.
No fim das contas, quando a política vira torcida organizada, não há vencedor. Só um Brasil mais dividido, mais raso no debate e mais distante do que realmente importa.
Confira o vídeo de Zezé:
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