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Quando a ignorância se disfarça de fé
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Quando a ignorância se disfarça de fé

As declarações do deputado Amauri Ribeiro sobre a exposição do Coletivo Onã revelam o quanto ainda falta conhecimento, respeito e compreensão sobre as religiões de matriz africana no Brasil.

 

Quando a fé se torna desculpa para o preconceito

Na última semana, a Assembleia Legislativa de Goiás virou palco de um triste espetáculo de intolerância. O deputado estadual Amauri Ribeiro (União Brasil), conhecido como “deputado do chapéu”, usou o plenário para atacar a Exposição Coletivo Onã, que celebra as religiões de matriz africana.

Em tom inflamado, Amauri afirmou que a mostra representava “adoração ao demônio”, citando elementos como tranca-rua, exu, pomba gira e oferendas, que, segundo ele, “não seriam de boa espiritualidade para os deputados”. A exposição, realizada no hall da Assembleia, reúne esculturas, fotografias, instrumentos e vestimentas ligadas ao candomblé e à umbanda, e tem curadoria de Laís Rocha, com apoio do deputado Mauro Rubem (PT).

Rubem reagiu de forma imediata, acusando Amauri de injúria religiosa e anunciando que levará o caso à esfera judicial. E tem razão: quando um parlamentar usa seu mandato para demonizar expressões culturais e espirituais brasileiras, ele não apenas ofende um grupo religioso — ele agride a Constituição, que garante liberdade de culto e respeito à diversidade.

Abertura da exposição “O Olho de Vidro o Sagrado Vivo”. Foto: Maykon_Cardoso

Da ignorância à arrogância

Ao afirmar que “respeita todas as religiões, mas apenas as que têm ligação com Jesus Cristo”, Amauri Ribeiro não apenas se contradiz: ele confessa que desconhece completamente a história das religiões e as bases da própria fé que professa.

As religiões de matriz africana — como o candomblé, a umbanda e suas vertentes — são algumas das manifestações mais antigas e legítimas da espiritualidade no Brasil. Elas nasceram da resistência de povos escravizados que, privados de liberdade e identidade, preservaram sua fé, seus rituais e seus deuses (os orixás) como forma de sobrevivência cultural.

Antes mesmo do cristianismo surgir, há cerca de dois mil anos, povos africanos já cultuavam forças da natureza e ancestrais, numa visão profundamente ligada ao equilíbrio e à coletividade. O animismo, o xamanismo e os cultos tradicionais africanos estão entre as primeiras expressões religiosas da humanidade, muito anteriores à fundação de igrejas cristãs.

Abertura da exposição “O Olho de Vidro o Sagrado Vivo”. Foto: Maykon_Cardoso

 

Um olhar sobre a linha do tempo da fé

Para entender o abismo entre o que se fala e o que se sabe, basta observar a linha histórica das religiões.

O hinduísmo surgiu por volta de 4.000 a.C., seguido pelas crenças da Mesopotâmia e do Egito Antigo. O judaísmo nasceu cerca de 1.800 a.C., e o cristianismo, do qual o deputado é adepto, tem pouco mais de dois mil anos.

O protestantismo só apareceu em 1517, com Martinho Lutero, e o pentecostalismo — corrente que deu origem à Assembleia de Deus, igreja a que Amauri se vincula — nasceu em 1906, nos Estados Unidos. Ou seja, uma fé recente, com pouco mais de um século, atacando tradições milenares que ajudaram a moldar o pensamento espiritual da humanidade.

Ignorar essa linha do tempo é apagar a própria história da espiritualidade humana. E quando esse apagamento vem de um representante do povo, o problema é ainda mais grave.

A política e o sagrado

O discurso de Amauri Ribeiro não é apenas religioso — é político. Representa uma visão estreita e perigosa de mundo, onde a fé se torna instrumento de poder e exclusão.

O Brasil é um país laico, mas a laicidade não significa ausência de religião; significa respeito a todas. Quando um deputado transforma o plenário em púlpito para impor sua crença, ele fere a democracia e alimenta o preconceito.

A fala de Amauri revela mais sobre ele do que sobre as religiões que critica. Fala de um medo do diferente, de uma carência de conhecimento e de uma necessidade de se afirmar pela negação do outro. O verdadeiro perigo não está nas velas, nas oferendas ou nas imagens do Coletivo Onã. Está na ignorância travestida de moralidade.

Conhecimento liberta, preconceito aprisiona

O episódio na Assembleia Legislativa de Goiás é mais um retrato da dificuldade que ainda temos de conviver com o plural. No país que abriga uma das maiores diversidades religiosas do mundo, ainda há quem veja no outro uma ameaça.

Ao chamar uma exposição de arte de “adoração ao demônio”, o deputado não expôs a mostra — expôs a si mesmo. Mostrou o quanto ainda estamos distantes de compreender que a fé, qualquer que seja, deve ser ponte, não muro.

Enquanto a ignorância for mais barulhenta que o respeito, o Brasil seguirá precisando reafirmar o óbvio: a liberdade religiosa é um direito, não uma concessão.

 

Nota histórica: a evolução das religiões no mundo

  • Animismo – Antes de 10.000 a.C.

  • Religiões da Mesopotâmia – 3.500 a.C.

  • Religião Egípcia Antiga – 3.000 a.C.

  • Hinduísmo – 4.000 a 2.000 a.C.

  • Zoroastrismo – 1.200 a.C.

  • Judaísmo – 1.800 a 1.200 a.C.

  • Budismo e Jainismo – Século VI a.C.

  • Cristianismo – 30 d.C.

  • Islamismo – 610 d.C.

  • Igreja Católica – 325 d.C.

  • Igreja Ortodoxa – 1054 d.C.

  • Protestantismo (Lutero) – 1517 d.C.

  • Calvinismo – 1536 d.C.

  • Metodismo – 1738 d.C.

  • Pentecostalismo – 1906 d.C.

  • Neopentecostalismo – Décadas de 1970 a 1980

Essa trajetória mostra que nenhuma fé é dona da verdade e que o respeito à diversidade é o primeiro passo para qualquer sociedade que se diga verdadeiramente espiritual e civilizada.