Chinelos rasgados, país partido
Quando a ideologia fala mais alto que a realidade
Não existe botão de impulsionar anúncio chamado “resolver rejeição”

Quando a ideologia fala mais alto que a realidade

Ideologia importada, empatia seletiva e a recusa em enxergar o colapso humano, econômico e democrático vivido pela Venezuela enquanto parte do Brasil prefere defender narrativas.

Há algo profundamente perverso no debate brasileiro sobre a Venezuela. Parte da militância política no Brasil insiste em defender o regime de Nicolás Maduro não por convicção humanitária, não por compromisso com a democracia, mas por alinhamento ideológico doméstico. Defende-se Caracas para atacar adversários em Brasília. O povo venezuelano vira detalhe.

Enquanto alguns brasileiros choramingam nas redes para proteger uma narrativa partidária, milhões de venezuelanos respiram alívio toda vez que o regime sofre desgaste internacional. Não é torcida política. É sobrevivência.

A tragédia venezuelana não começou ontem. Ela é consequência direta de um projeto de poder iniciado ainda sob Hugo Chávez, aprofundado por Maduro e sustentado por repressão, controle institucional e destruição econômica. Os dados não são opinião. São fatos.

Segundo organismos internacionais, mais de 7,7 milhões de venezuelanos deixaram o país na última década. É o maior êxodo da história recente da América Latina. Isso não acontece por causa de “fake news”, “bloqueio psicológico” ou “narrativa da direita”. Pessoas não abandonam sua terra, sua língua e sua família por birra ideológica.

A economia foi pulverizada. A Venezuela viveu hiperinflação que ultrapassou 1.000.000% ao ano no auge da crise. Salários foram reduzidos a valores simbólicos. Profissionais passaram a ganhar o equivalente a poucos dólares por mês. Serviços básicos colapsaram. Faltou comida, faltou remédio, faltou luz, faltou água. Isso é documentado por ONU, ACNUR, FMI e Human Rights Watch.

No campo dos direitos humanos, o cenário é ainda mais grave. Relatórios apontam prisões arbitrárias, tortura, censura à imprensa, perseguição a opositores e uso sistemático das forças de segurança para silenciar dissidências. Eleições sem competitividade real, com candidatos presos ou inabilitados, viraram rotina. Chamar isso de democracia é desonestidade intelectual.

Mesmo assim, no Brasil, há quem trate Maduro como símbolo de resistência. Não porque conheça a realidade venezuelana, mas porque precisa defender uma posição no tabuleiro político interno. É mais fácil romantizar um regime distante do que encarar seus próprios fracassos argumentativos.

O contraste é brutal. Venezuelanos comemoram qualquer sinal de enfraquecimento do regime porque isso representa esperança concreta de mudança. Não é festa por vingança. É alívio de quem viveu anos sob escassez, medo e silêncio forçado. Enquanto isso, brasileiros que nunca enfrentaram um apagão de semanas, nunca ficaram horas em filas por comida e nunca viram parentes fugir a pé para outro país se dizem “indignados” em nome de uma causa abstrata.

Defender Maduro do conforto do sofá em São Paulo, Brasília ou Recife é fácil. Difícil é explicar isso para o venezuelano que cruzou a fronteira com o Brasil carregando filhos no colo. Difícil é olhar para os números, para os relatos, para as imagens, e ainda assim fingir que tudo não passa de exagero midiático.

Ideologia não pode ser mais importante que gente. Quando é, deixa de ser política e vira cinismo.

O mínimo que se espera de quem se diz progressista, humanista ou democrata é empatia com o povo, não fidelidade cega a regimes. O resto é barulho. E, para quem viveu o inferno venezuelano, esse barulho soa como insulto.