Avante… ao retrocesso: quando o Tufão passa e o Zói não vê
O Dragão, a Onça e a Hipocrisia: quando a arte revela mais sobre nós do que sobre ela
Aparecida de Goiânia e a Verdade que o Dia da Consciência Negra Escancara

O Dragão, a Onça e a Hipocrisia: quando a arte revela mais sobre nós do que sobre ela

Entre a fúria seletiva e a memória curta, o Brasil transforma uma escultura em batalha espiritual enquanto esquece quem realmente deveria causar espanto.

A cena é simples. Uma escultura de bronze, feita por uma artista de renome internacional, apresentada em Belém como parte do legado cultural da COP 30. A obra mistura elementos amazônicos com mitologia chinesa, criando uma criatura híbrida, onça e dragão, que simboliza força, ancestralidade e proteção. Nada além disso. Uma peça de arte. Uma metáfora. Um símbolo.

Mas, no Brasil, símbolos viram munição.

A peça mal havia tocado o chão da Freezone Cultural Action quando setores evangélicos começaram a tratá-la como um sinal do fim dos tempos. Um dragão com onça, olhos fixos, chifres erguidos. Pronto. Estava feito o pânico moral. Versículos bíblicos foram citados como cortes de tesoura, desconectados do contexto histórico. Perfis inflamados decretaram que o monumento era um engano, um recado oculto, uma aliança espiritual contra o cristianismo nacional. O discurso se espalhou rápido, como todo medo mal explicado.

O detalhe curioso e revelador é que parte do alvoroço foi alimentada pela própria liderança religiosa que já carregou sua cota de escândalos. O apóstolo que puxou o fio dessa indignação coletiva foi o mesmo que, em 2007, foi preso nos Estados Unidos por tentar entrar com mais de cinquenta mil dólares não declarados, escondidos dentro de uma Bíblia. Para muitos fiéis, isso parece ter sido menos grave que uma escultura de bronze em praça pública.

Estevam Hernandes e bispa Sônia – fuxicogospel.com.br

A memória seletiva é uma bênção para quem vive dela.

Enquanto a arte é atacada, ninguém se pergunta por que se escolhe travar guerra contra estátuas, e não contra a corrupção interna, a exploração da fé ou os abusos históricos dentro das próprias denominações. A comoção não é inocente. Ela mobiliza, fideliza, produz engajamento. Vira pauta. Vira combustível político.

O Brasil já viu essa novela. Basta lembrar do pânico moral do rock, do Dungeons and Dragons, de Harry Potter, das escolas de samba, da Xuxa, das obras modernistas da Semana de 22. Sempre há algo diabólico à espreita, pronto para ser exorcizado em praça pública. Hoje é a onça com dragão. Amanhã será outra obra, outro artista, outro alvo que não oferece resistência.

A ironia é que a própria Bíblia, tão citada para atacar a escultura, nunca afirmou que símbolos visuais de culturas estrangeiras carregam poder espiritual intrínseco. Quem atribui poder a eles somos nós. O Diabo, segundo o próprio texto sagrado, não precisa de estátuas. Ele opera na mentira, na ganância, na manipulação. Justamente nas áreas em que muitos líderes moralistas tropeçam com frequência desconfortável.

A escultura não diz nada sobre o inimigo espiritual.
Mas diz muito sobre o inimigo interno. O medo, a desinformação e o hábito de criar monstros onde há apenas metáfora. A obra é uma fusão cultural. O escândalo é uma fusão de ignorância com conveniência.

No fim das contas, talvez o episódio diga mais sobre nós do que gostaríamos de admitir. A arte provoca. A arte mexe. A arte incomoda. E incomoda justamente porque obriga a olhar para as camadas que preferimos varrer para debaixo do tapete. Nossa intolerância religiosa, nosso provincianismo cúmplice e a facilidade com que manipulamos símbolos para justificar indignações prontas.

A COP 30 quis deixar um legado cultural.
O Brasil, fiel ao seu folclore político religioso, deixou outra coisa. Um retrato nítido de como a histeria organizada ainda dita o tom das nossas conversas.

Se há algo demoníaco nisso tudo, certamente não está feito de bronze.