A era em que o conteúdo perdeu sentido e a popularidade venceu o bom senso
Vivemos a era do vazio. A era em que influenciadores digitais não precisam mais ter bagagem, conhecimento nem propósito. Basta serem diferentes, engraçados ou polêmicos. Quanto mais escandaloso, mais viraliza. Quanto mais fútil, mais engajamento.
Antigamente, quem tinha o poder de influenciar precisava dominar o assunto. O influenciador era alguém que estudava, que trazia algo novo, que te fazia refletir. Hoje basta saber editar um vídeo, falar com desenvoltura e parecer autêntico, mesmo que o conteúdo seja uma coleção de absurdos.
O resultado é simples: milhões de seguidores consumindo o nada. O vazio travestido de entretenimento.
Conteúdos vazios e engajamentos inflados
Hoje, um post que mostra alguém dançando de forma caricata ou fazendo dublagens sem sentido tem mais alcance do que um conteúdo que ensina, emociona ou transforma. A lógica é simples: o ridículo dá views. E views dão dinheiro.
Enquanto isso, vozes genuínas, pessoas que realmente inspiram, são ignoradas. Influenciadores que falam de cultura, educação, gastronomia ou comportamento perdem espaço para quem grita, polemiza e transforma tudo em espetáculo.
Um exemplo claro é o setor de gastronomia. Restaurantes investem em influenciadores pagos que aparecem em vídeos com o fundo vazio, pratos frios e legendas genéricas. E o impacto? Nenhum. Um post sincero de alguém comum, que foi ao restaurante, comeu bem e compartilhou de forma espontânea, gera mais desejo, mais credibilidade e mais vendas do que um publipost ensaiado.
Quando o real perde para o algoritmo
Enquanto o brasileiro discute a nova tatuagem de uma influenciadora ou o que ela comeu no café da manhã, assuntos realmente importantes desaparecem das timelines.
Enquanto milhões comentam sobre Virgínia Fonseca, poucos sabem quem é María Corina Machado, a venezuelana que acaba de ganhar o Prêmio Nobel da Paz por sua luta em defesa da democracia e dos direitos humanos em seu país. María Corina arriscou a própria liberdade enfrentando uma ditadura e inspirou o mundo com sua coragem, mas o mundo digital parece não ter tempo para ela.

As redes preferem dar palco para quem faz dancinhas de TikTok e piadas rasas do que para quem arrisca a vida tentando reconstruir uma nação. É mais fácil se distrair com futilidades do que se interessar por quem está mudando a história real.
Enquanto milhões compartilham teorias sobre quem matou Odete Roitman, quase ninguém percebeu que o fundo eleitoral brasileiro saltou de 1 bilhão para 4,9 bilhões. E tudo isso acontece porque a atenção pública foi sequestrada pelo entretenimento vazio.
Tudo isso não é coincidência. É consequência de uma cultura digital que recompensa o superficial. Quanto mais tempo o povo gasta com futilidades, menos percebe o que realmente importa.
O que deveria ser influência
Influência não é sobre números, é sobre impacto.
É sobre transformar opiniões, inspirar mudanças, promover boas ideias.
Ser influenciador é ter responsabilidade com quem te ouve. É usar a voz para somar, não para saturar.
Bons influenciadores ainda existem, mas são poucos. São pessoas como Luiz Felipe Pondé, que provoca reflexões sobre comportamento, moral e sociedade sem precisar apelar para o sensacionalismo. Como Emicida, que transforma rimas em poesia social e faz da música um instrumento de consciência. Como Itamar Vieira Junior, que com a literatura retrata o Brasil real, suas dores e grandezas. Como Átila Iamarino, que usa a ciência para esclarecer, não confundir, e leva informação técnica com empatia e responsabilidade. Como Rafaela Lima, que promove o pensamento crítico e a educação como base para uma sociedade mais justa.
Esses nomes mostram que é possível influenciar com conteúdo, e não com exageros. São vozes que produzem reflexão em vez de ruído, que inspiram pela verdade e não pela aparência.
Precisamos voltar a admirar quem fala com propósito. Gente que tem algo a ensinar, que tem história, que gera valor real. Porque, no fim, o que fica não é o vídeo viral, mas o legado do que se compartilha.

