O boicote à Havaianas escancara um país onde o ódio ideológico fala mais alto que a fome e o bom senso
O Brasil encerra mais um ano mergulhado em uma contradição incômoda. Enquanto milhões de famílias enfrentam um Natal apertado, com dificuldade até para garantir o básico, parte do debate público se ocupa em rasgar, queimar e jogar fora um par de chinelos como gesto político. Não é metáfora. É literal.
A recente campanha publicitária da Havaianas, estrelada por Fernanda Montenegro, foi o estopim. Uma frase simples, dita com humor e leveza, desejando que o ano comece “com os dois pés”, virou combustível para mais um surto de interpretação ideológica. Bastou alguém decidir que “pé direito” não era só expressão popular, mas símbolo político, para que o boicote ganhasse corpo.
O resultado foi previsível. Vídeos de pessoas cortando chinelos, queimando produtos já comprados, incentivadas por influenciadores e figuras públicas ligadas ao campo bolsonarista, orbitando o entorno do ex-presidente Jair Bolsonaro. Um espetáculo de fúria performática que diz muito menos sobre a marca e muito mais sobre o estado emocional do debate político brasileiro.
O ponto central não é a Havaianas. Tampouco Fernanda Montenegro. O ponto é o sintoma.
Vivemos um tempo em que tudo precisa ser enquadrado como ataque ou defesa. Se não é “do meu lado”, é “do outro”. Se não reforça minha bolha, merece ser destruído. Esse fanatismo, seja à direita ou à esquerda, não constrói nada. Ele apenas rompe. Rompe laços familiares, amizades antigas, ambientes de trabalho. Cria silêncios constrangedores na ceia de Natal e ressentimentos que atravessam o ano seguinte.
Enquanto isso, fora da bolha digital, a realidade é outra. Há crianças que passariam o Natal felizes com um simples par de chinelos. Há famílias escolhendo entre a conta de luz e a ceia. Há gente contando moedas enquanto assiste, pela tela do celular, pessoas destruindo um produto que poderia ter sido doado, reaproveitado, transformado em algo útil.
Esse contraste deveria nos constranger.
A ironia maior é que, enquanto o povo se divide em guerras simbólicas, os políticos seguem brindando no mesmo balcão. Trocam farpas em público, mas circulam nos mesmos eventos, compartilham os mesmos espaços de poder e, no fim do dia, não deixam de dormir em camas confortáveis. A conta da polarização nunca chega para eles. Chega para quem está aqui embaixo, pagando mais caro por tudo, inclusive pela intolerância.
Não se trata de defender marcas, nem de censurar críticas. Boicote é um direito. Discordar também. O problema começa quando o debate deixa de ser racional e vira ritual de ódio. Quando o gesto político se torna mais importante do que o impacto humano. Quando destruir passa a ser celebrado como virtude.
O Brasil não precisa de mais símbolos queimados. Precisa de mais empatia. Precisa entender que fanatismo não resolve inflação, não enche prato, não gera emprego e não aproxima pessoas. Apenas afasta.
Talvez o maior desejo para o próximo ano não seja começar com o pé direito, nem com os dois pés. Talvez seja começar com a cabeça no lugar e o coração menos intoxicado por uma polarização que só interessa a quem já está confortável no topo.
Porque, enquanto o povo rasga chinelos, o país segue rasgado. E isso, definitivamente, não é campanha publicitária. É realidade.