Um olhar crítico sobre desigualdade racial, intolerância religiosa e a urgência de reconhecimento pleno em uma cidade que é negra em sua essência, mas ainda luta para garantir espaço e dignidade a todos os seus filhos.
O Dia da Consciência Negra costuma chegar como uma data que convida à lembrança, mas em Aparecida de Goiânia ele deveria ser, acima de tudo, um chamado à honestidade. Não apenas sobre o passado de resistência, mas sobre o presente de desigualdades que insistimos em normalizar. A cidade é majoritariamente negra, vibrante, trabalhadora e profundamente marcada por uma diversidade cultural que molda seu cotidiano. Ainda assim, quando olhamos para os espaços de poder, de prestígio e de decisão, a representatividade se dilui como sombra ao meio-dia.
Aparecida cresceu sobre o esforço de mãos negras que levantaram bairros, sustentaram o comércio, alimentaram a cultura comunitária e mantêm a economia em movimento até hoje. No entanto, essa presença tão evidente nas ruas não se reflete na mesma intensidade nos conselhos, nas chefias, nas coordenações e em setores que determinam o rumo da cidade. É um descompasso que não deveria mais existir, mas que persiste sem cerimônia.
A Coordenadoria de Direitos Humanos e Igualdade Racial cumpre um papel importante e necessário. Promove eventos, participa de conferências, realiza formações, articula iniciativas e marca presença simbólica nas principais pautas do tema. Contudo, o que ainda falta é profundidade. Falta orçamento contínuo, metas claras, políticas estruturadas e resultados mensuráveis. Falta alcançar a população negra com respostas práticas, não apenas com calendários comemorativos. Racismo não se rompe com solenidades, e sim com estratégia, investimento e constância.
E não dá para falar de igualdade racial em Aparecida sem tocar em uma ferida que costuma ser silenciosa: o preconceito contra religiões de matriz africana. A cidade convive com a intolerância religiosa de forma recorrente, muitas vezes escondida atrás de discursos moralistas ou supostamente espirituais. Casas de umbanda e candomblé enfrentam hostilidade, perseguição simbólica, estigmatização e falta de apoio institucional. Muitas funcionam quase clandestinas, com receio de ataques, piadas ou represálias.
É comum ver pessoas negras plenamente aceitas como trabalhadoras, vizinhas e cidadãs, mas rejeitadas quando expressam sua fé ancestral. A aceitação termina quando a religião aparece. É um racismo disfarçado de zelo espiritual. A ausência de espaços de diálogo e a falta de garantia para o funcionamento pleno dessas casas revelam o quanto a cidade ainda se encontra presa a narrativas que tratam culturas afro-brasileiras como ameaça, e não como patrimônio.
Aparecida tem uma vida cultural intensa. Tem hip-hop, capoeira, grafite, dança, coletivos comunitários e artistas que transformam periferias em palco. No entanto, quando a cultura afro assume forma religiosa, a cidade ainda tropeça. A falta de proteção e reconhecimento a esses espaços mostra que a consciência negra, aqui, precisa ser mais que reflexão; precisa se tornar ação efetiva contra a intolerância.
O Dia da Consciência Negra em Aparecida não pode ser apenas lembrança. Deve ser incômodo. Deve ser espelho. Deve escancarar que igualdade racial não é discurso de ocasião. É compromisso público com a dignidade de quem constrói diariamente a cidade e ainda assim precisa lutar para existir plenamente.
A data não precisa de homenagens vazias. Precisa de compromisso.
Precisa de seriedade.
Precisa, sobretudo, de continuidade.
Se Aparecida quiser honrar sua própria realidade demográfica, precisa avançar para além do básico. É imperativo fortalecer a Coordenadoria com autonomia real, reconhecer e proteger as religiões de matriz africana, valorizar lideranças negras, ampliar oportunidades e garantir que a juventude negra não seja tratada como alvo, mas como protagonista.
Consciência negra não cabe em um único dia. É prática constante. É responsabilidade coletiva.
Aparecida de Goiânia, que já é cidade de força e diversidade, só será verdadeiramente inclusiva quando enxergar sua negritude como potência e não como adereço.
Se a cidade quiser honrar sua própria composição demográfica, deve transformar consciência em ação.
E transformar ação em justiça.
Aparecida de Goiânia, afinal, nunca foi apenas território. Sempre foi gente.
E essa gente merece ser vista, ouvida e reconhecida todos os dias.